A clínica da instituição a partir de questões transferenciais na equipe interdisciplinar: um aporte ao CAPSi
Palavras-chave:
Reforma psiquiátrica, interdisciplinaridade, coletivo e transferênciaResumo
Este artigo parte da experiência no campo da saúde-mental, mais especificamente da saúde-mental infanto-juvenil que passa por modificações na estrutura de seus serviços, devido ao movimento conhecido como reforma psiquiátrica. Este movimento possui, a partir de seu marco legal, dentre outras coisas, um atendimento comunitário, com a implementação de serviços substitutivos ao modelo asilar. E visa também, desfocar da exclusividade de uma visão medicalocêntrica, saindo da hierarquia vertical que tinha como eixo o saber psiquiátrico para uma horizontalidade do cuidado mediante um processo de trabalho com equipes interdisciplinares. Tem como objetivo, a partir de nossa memória anacrônica como técnico de saúde em psicologia nas instituições CAPSi, construir uma ficção clínica considerando essa memória, porém, enfocando principalmente, o mal-estar vivido pelos profissionais dessas equipes à luz da consideração do conceito de transferência para a psicanálise como aporte teórico. O artigo analisa as repercussões das atuais mudanças na estrutura do campo da saúde mental sobre o tratamento de um sujeito e seus familiares, que reflete antes alterações da estrutura social mesma para o trabalho clínico nas instituições CAPS e como pode se encaminhar a noção de autoridade nas decisões que perpassam esta clínica. O que amparou as análises e propostas foi principalmente o trabalho de Lebrun (2009) A clínica da instituição que pode apontar como caminho não um retorno ao modelo psiquiátrico autoritário de antes, nem tampouco um laissez-faire nas equipes interdisciplinares, mas uma construção constante e singular de novas possibilidades, sem desconsiderar a prevalência do coletivo sobre os profissionais especializados de uma instituição.
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